domingo, 20 de setembro de 2009

Olhai os lírios do campo - Erico Verissimo

"Ficaram algum tempo em silêncio. Ele acendeu um cigarro. Ela recostou a cabeça no flanco do dragão.
Tinha o rosto comprido, dum moreno pálido; à primeira vista não impressionava nem bem nem mal. Quando a vira, pela primeira vez, Eugênio se sentia inclinado a dizer: Feia não é. Mas bonita... muito menos. Fixando mais demoradamente a atenção naqueles olhos negros, vendo aquele rosto animar-se duma vida e duma estranha beleza que surgiram inesperadas de algum misterioso esconderijo interior e que não dependiam em absoluto dos traços fisionômicos - ele fica pensando... Acabar por fazer concessões: "Tem um certo quê..." Seria a boca? Não. Abocaera grande e de desenho comum. O nariz? Também não. Era comprido e delgado. Eram, então, os olhos. Pretos e serenos, não se distinguiam pela vivacidade, pela mobilidade ou por algum brilho raro. Eram olhos para os quais ao cabo de algumas reflexões Eugênio só achou um qualitativo: humanos. Envolviam mornamente a pessoa ou objeto em que se fixavam, davam uma idéia de profundidade insondável e principalmente de compreensão. Pareciam enxergar além das coisas com uma penetração que nada tinha de indiscreto ou agressivo. Eugênio, porém, quando pensava em Olívia, não podia separar da imagem da amiga a memória de sua voz. Até na maneira de falar Olívia se recusava a fazer chantagem. Sua voz não era rica em inflexões, não se coloria de falsas doçuras. Era, antes, quase monocórdia, grave e tranqüila; tinha, como nos olhos, uma quente qualidade humana."


Trecho do livro "Olhai os lírios do campo" de Erico Verissimo.
Esse livro já foi adaptado para novela, pela Rede Globo.

Eu gosto muito desse livro. Gosto da história, da fala... de tudo.

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